sábado, 6 de março de 2010

A Oeste de Minas e o crescimento da cidade de São João del-Rei (1881 - 1900)



Por: Bruno Nascimento Campos

Com a chegada da ferrovia e, principalmente, com sua expansão, a cidade de São João del-Rei passa   a   concentrar   grande   parte   de   sua   expansão   urbana acompanhando  os  trilhos,  tendendo  progressivamente  aproximar-se  do  arrabalde  de Matosinhos e do núcleos de imigração das colônias do Marçal e do José Teodoro.

Conforme   indica   Graça   Filho,   o   núcleo   urbano   de   São   João   del-Rei encontrava-se,   no   último   quartel   do   século   XIX,   em   acelerado   processo   de urbanização[1] .  Numa  análise  rasteira  do  crescimento  da  cidade  a  partir  de  fins  do oitocentos  é  possível  verificar  a  decisiva  influência  da  ferrovia  como  guia  deste crescimento.
 
Fonte: LIMA, Sérgio José Fagundes de Souza. Arquitetura São-Joanense do Século XVIII ao XX. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei. Vol. VIII. São João del- Rei: Gráfica da APAE, 1995. Modificado pelo autor.

 Notamos no mapa acima que a área marcada que apresentou crescimento a partir  de  fins  do  século  XIX  se  concentra  na  área  do  entorno  da  estação  ferroviária. Podemos afirmar que a ferrovia influiu diretamente como orientadora deste crescimento, já que para seu funcionamento era exigido um contingente enorme de mão-de-obra na operação e nas oficinas inauguradas em 1882, estes trabalhadores passaram a habitar o mais  próximo  possível  do  local  de  trabalho.  Além  disso,  casas  comerciais  dos  mais variados tipos se instalaram nas proximidades da estação, hotéis e casas comerciais de todo tipo. O eixo do comércio foi aos poucos se deslocando para a rua Paissandú [2].

Com a  chegada da ferrovia na cidade várias melhorias foram introduzidas nos  serviços  urbanos.  Não  perdendo  de  vista  que  este  período,  de  fins  do  Império  e início da República, foi, em várias regiões do país, de modernização da indústria e da introdução de melhoramentos nos serviços urbanos [3].

O periódico “A Pátria Mineira”, em fevereiro de 1892, faz um balanço do que ocorrera nos dois anos anteriores, o que dá noção do crescimento ocorrido em tão pouco tempo:

“No decurso dos dous ultimos annos em nossa cidade mais de cem prédios;  abriram-se  diversos  hoteis  (...);  fundaram-se  duas  companhias industriaes  e  um  banco  (...);  estabeleceram-se  mais  tres  relojoarias  (...); mais trez (sic) alfaiatarias; diversas officinas de sapateiros; tres institutos de  educação  (...);  organizaram-se  diversas  associações,  sendo  duas  de beneficencia;    finalmente    abriu-se    mais    uma    rua    aprasivel,    a    das Mangueiras[*].
Por  outra  parte,  apezar  do  augmento  das  construcções,  não  se ncontram predios desoccupados; os alugueis das casas têm subido de preço, há emprego e serviço para quntos procuraram trabbalho e não obstante o alto  preço  de  todos  os  generos,  tem  desapparecido  em  grande  parte  a mendicidade, que nos sabbados infestava as ruas da cidade”[4].
[*] Hoje rua Comendador Costa. V. Carlos de Laet. Em Minas. 2ª ed., São Paulo, Globo,1993, p.27.

Parece que a cidade manteve um bom ritmo de melhoria. Em fevereiro de1909, o periódico “A Opinião” afirma que:

(...)  vivemos   em   uma   cidade   que,   por   seu   commercio   e   sua população occupa talvez o terceiro ou quarto logar no Estado de Minas (...), poucos  municipios  mineiros  terão  uma  renda  superior  á  de  S.  João  d’El- Rey[5].

O serviço de telégrafos foi feito pela Oeste de Minas, para “qualquer partedo mundo em que tenha chegado o fio telegraphico”, até 1896, quando foi inaugurada aqui uma estação do Telégrafo Nacional.

Em   1887   foram   feitos   melhoramentos   nos   sistemas   de   captação   e distribuição  de  água  na  cidade  com  a  participação  do  engenheiro  da  Oeste,  Hermillo Alves .  Em  1893,  a  Câmara  cria  uma  empresa  para  cuidar  da  canalização  de  água potável  e  para  promover  o  calçamento  na  cidade .  Em  1915  foi  feita  uma  grande ampliação  nestes  sistemas  de  captação  de  distribuição  de  água,  passando  atender  ao Bairro das Fábricas e Matosinhos, além de se modernizar e ampliar também a rede de captação  de  esgotos.  Entre  1887  e  1915,  estes  bairros,  principalmente  o  bairro  das Fábricas,   passaram   de   algumas   chácaras   esparsas   à   consideráveis   concentrações
populacionais como podemos conferir na ilustração abaixo. Em 1893 inaugurou-se o Teatro Municipal.  Em  1900  foi  inaugurado  em  São  João  o  serviço  de  iluminação  elétrica, encampado  pelo  município  no  mesmo  ano.  A  oferta  de  energia  elétrica,  segundo Augusto Viegas, proporcionou à cidade um “surto de progresso que de então por diante experimentou”
.
A chegada de indústrias ocorreu pela presença da ferrovia. Estas indústrias se instalaram às margens da ferrovia de modo a facilitar a chegada de matérias-primas e o escoamento da sua produção. No período abrangido por esta monografia se instalaram às margens da ferrovia a Companhia Industrial Sanjoanense  e a Ferreira Guimarães & Cia  (Fábrica  de  Tecidos  Brasil) ,  ambas  na  av.  Leite  de  Castro,  e  uma  fábrica  de laticínios  em Matosinhos. Gaio Sobrinho aponta o surgimento de fábricas em outros segmentos  e  em  outros  locais  da  cidade  neste  período  de  1881  a  1915:  fábricas  de massas alimentícias, de móveis e colchões, de bebidas, de artefatos de folhas de flandres, alfaiatarias, entre outras.

A  Cia.  Industrial  Sanjoanense  contou  por  vários  anos  com  um  ramal ferroviário  de  alguns  poucos  metros  que  entrava  no  pátio  da  fábrica.  Junto  à  fábrica desta  empresa  foi  criada  uma  vila  operária  que,  sem  dúvida,  deu  grande  impulso  ao povoamento desta região.

 
Foto da década de 1920. Acervo do NEOM-ABPF.

A foto acima dá uma noção de como o crescimento da cidade foi orientado pela  ferrovia.  A  avenida  Leite  de  Castro,  com  uma  pista  de  cada  lado  da  ferrovia, concentrou  a  maior  parte  do  crescimento  populacional  da  cidade  até  o  surgimento  de outras indústrias no arrabalde de Matosinhos, que passava então dividir este crescimento. Esta avenida termina nas proximidades do núcleo colonial do Marçal.
 

Em 1891  foi  fundada  a  Companhia  Agrícola  e  Industrial  Oeste  de  Minas, em  cujos  estatutos  se  propunha  “promover  a  cultura  da  uva  em  São  João  del-Rei, Tiradentes, Bom Sucesso, Lavras e Oliveira. (...). Fabricar vinho, álcool e vinagre (...). Cultivar  mandioca  e  anileira  (...).  Explorar  a  indústria  de  cera  e  cerâmica” .  Esta empresa se propunha atuar em toda a área abrangida pela E.F. Oeste de Minas e contava com  a  promessa  do  governo  de  promover  a  imigração.  De  fato,  ela  trabalharia fundamentalmente com mão-de-obra de imgrantes que seriam instalados em colônias ao longo da ferrovia.


Bibliografia 

[1] Afonso de Alencastro Graça Filho. A Princesa do Oeste e o Mito da Decadência de Minas Gerais São João del Rei (1831-1888). São Paulo, Annablume,  2002, p. 133.

[2] Hoje avenida Presidente Tancredo Neves. V. Sebastião Cintra. Nomeclatura de Ruas de São João del-Rei. Juiz de Fora-MG, Zas Gráfica e Editora,1988, p.07. Nos periódicos é possível notar o aparecimento de novos estabelecimentos nesta  rua  através  dos  anúncios  de  casas  comerciais.  A  rua  localizada  entre  o  prédio  da  Câmara  Municipal  (atual Prefeitura) e a estação ferroviária também concentrou grande parte destas casas comerciais, neta rua localizavam-se o Hotel  Oeste,  juntamente  com  a  sede  da  companhia,  o  Teatro  Municipal  (1909),  casa  inglesa  de  importação  e exportação “Hopkins and Hopkins”, com sede no Rio de Janeiro, entre outras. A região próxima a estação ferroviária tornou a mais dinâmica da cidade dos dois lados do Córrego do Lenheiro.

[3] V. José Miguel Arias Neto. Primeira República: economia cafeeira, urbanização e industrialização. In: Jorge Ferreira e Lucília de Almeida Neves Delgado (orgs.). O Brasil Republicano: O tempo do liberalismo excludente. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003.

[4] “A Pátria Mineira”. Várias edições.

[5]  “A Opinião”. Várias edições.

Antônio Gaio Sobrinho. História do Comércio em São João del-Rei. São João del-Rei-MG. Edição do autor, 1997.

Augusto Viegas. Notícia de São João del-Rei. 3ª ed., Belo Horizonte, Imprensa Oficial, 1969.

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