Através de ofício encaminhado ao Presidente da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), a diretoria da ASPEF solicita a transformação da ASPEF em Núcleo de Estudos Oeste de Minas da ABPF. O pedido será deliberado pela Assembleia Nacional da ABPF que ocorrerá em 23 de janeiro próximo.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
O Trem das Águas (EFOM)
José Antônio de Ávila Sacramento
Estação Ferroviária de Águas Santas (foto do ano de 1956). Inaugurada em 1911, funcionou até 1966. Segundo Tarcísio José de Souza, o prédio era todo de Pinho de Riga, com armação de trilhos: "construção magnífica, feita com gosto apurado, pintada de cinza. Ficava no pé da serra de Tiradentes. Criminosamente foi demolida e sobre seus alicerces existe hoje um lago artificial. Não cabe na cabeça de ninguém decisões como esta.". (Foto: arquivo do autor). José Augusto Moreira[1], meu confrade de Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, através de um belíssimo e histórico depoimento, conta que “eram sete horas da manhã de um dia qualquer da década de 40. Na estação, o trenzinho das Águas Santas recebia as pessoas, que se demandavam em busca de aprazíveis horas no balneário. A locomotiva nº 14, soltando suas baforadas de vapor, como um dragão pronto para o ataque, ela alimentada, continuamente, pelo foguista.
Tocou a sineta, o Chefe apitou, agitando a bandeirinha verde, um longo apito da máquina, e começou aquele saudoso passeio. Marcha vagarosa, sem a velocidade dos nossos elétricos atuais, avançava a ‘14’ pela trilha rotineira. De preferência, viajávamos na plataforma dos carros, por ser mais agradável, apreciando os trilhos e dormentes que se distanciavam. Já havíamos passado por Chagas ia. Aproximávamos do Brighenti e do Giarola.
Em cada parada o guarda-freio, o Elisiário, descarregava sacos, sacolas e caixas. Ele era uma figura inesquecível, com seu espesso e longo bigode, a fazer caretas para as crianças. Umas gostavam, outras choravam assustadas. Também com os adultos ele fazia as suas brincadeiras. O Chefe do Trem, sr. Benvindo, esse era ‘durão’. Homem enérgico, exigente na sua função, não permitia que viajássemos ‘de graça’, nem mesmo nós, que na estação éramos Praticantes, isto é, éramos preparados para o cargo de Conferente. Somente no dia da folga dele é que, pela camaradagem de outro Chefe de Trem, viajávamos sem pagar. No entanto, o sr. Benvindo, que demonstrando uma fisionomia séria, foi e continua sendo um homem bom, íntegro de caráter e de responsabilidade, daí a razão de sua exigência.
O homem é o maior responsável pelo trabalho de destruição e de transformação da superfície terrestre. César de Pina, que naqueles dias era uma estação com bom afluxo de passageiros, pois fazia ligações com outros lugarejos próximos, hoje é uma casa velha, abandonada. Entre César de Pina e Água Santas, onde havia um leito de trilhos, há, atualmente, uma pista asfáltica, ladeada de bonitas casas de campo. Basta de divagações. Voltemos ao nosso passeio. Com mais alguns minutos chegávamos à estância balneária. Piscina velha, lodosa, mas que deixou-nos saudades profundas. Depois do banho, subíamos a serra, até dobramos do outro lado. Lá sentíamos o silêncio absoluto, quebrado apenas pelo canto de um ou outro pássaro. O caminho que dava acesso ao alto da montanha era calçado de pedras, dispostas em desalinho, mas que dava a idéia do seu uso, quem sabe, nos dias de Tomé Portes del-Rei, de Antônio Garcia da Cunha e de João de Siqueira Afonso.
Depois de algumas horas passadas ali, já no horário de almoço, retornávamos, no trenzinho romântico, a São João, com um apetite voraz, causado pelo banho de piscina, pelo corre-corre e pelo galgar da serra.
Nas paradas dava-se o embarque dos passageiros e o recolhimento das verduras, das frutas e das latas de leite. Afinal chegávamos ao nosso ponto de origem. A viagem terminara. Seguiram-se muitas e muitas outras, curtas mas gostosas, que também chegaram ao seu fim. Hoje tudo acabou. Não há mais viagens, não há mais trenzinho, a locomotiva 14 foi desmontada para sucata, o Elisiário já desfruta das moradas celestiais. O sr. Benvindo está, com seus familiares, desfrutando, tranqüila e saudavelmente, os seus anos de vida que a aposentadoria lhe garantiu, consciente do cumprimento de seu dever. A nós, pela evolução da vida, ao gozarmos as delícias das instalações modernas das Águas Santas, o fazemos, não mais pela via férrea, mas no nosso carro, conservando apenas as gratas recordações dos anos que se passaram
Assim, rendo as minhas maiores e melhores homenagens ao confrade Moreira (que deve ser considerado o verdadeiro autor deste artigo!) e apresento aos meus leitores[2] um formidável registro para a memória ferroviária de São João del-Rei!
NOTAS:
[1] Sócio Efetivo do IHG, titular da cadeira nº 27, cujo patrono é Gentil Palhares (atualmente encontra-se licenciado por motivos de saúde).
[1] Sócio Efetivo do IHG, titular da cadeira nº 27, cujo patrono é Gentil Palhares (atualmente encontra-se licenciado por motivos de saúde).
[2] Este artigo foi publicado originalmente no Jornal de Minas (São João del-Rei - MG, Edição 116, Ano IX, 01 a 07 de janeiro de 2010), editado por Neudon Bosco Barbosa.
sábado, 28 de novembro de 2009
Estrada de Ferro Oeste de Minas: a empresa e o trem turístico
A Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM) foi uma empresa ferroviária mineira que existiu entre 1878 e 1931. Em 02 de fevereiro de 1878 foi fundada a Companhia Estrada de Fero d'Oeste em São João del-Rei. Em 24 de janeiro de 1931 a EFOM foi arrendada ao Governo do Estado de Minas Gerais, que a fundiu com as demais estradas de ferro federais, a Rede Sul Mineira, que já estavam sob sua responsabilidade, formando a Rede Mineira de Viação. Era o fim da empresa Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM).
Porém, na década de 1970, a Superintendência Regional 2 da extinta Rede Ferroviária Federal (RFFSA/SR-2), resolveu recuperar o antigo nome, Estrada de Ferro Oeste de Minas, para divulgar e promover o turismo nas linhas de bitola de 0,76m que permaneciam com praticamente os mesmos equipamentos adquiridos até a década de 1920. Surge assim o Trem Turístico Cultural Estrada de Ferro Oeste de Minas. Com a erradicação dos trechos de bitola de 0,76m entre as estações de Antônio Carlos e Aureliano Mourão, na decada de 1980, foram preservados os 12km que ligam as estações de São João del-Rei e Tiradentes.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Estação Ferroviária de Chagas Dória
José Antônio de Ávila Sacramento[1]
Ao amigo e confrade Benito Mussolini Grassi de
Lelis, ex-ferroviário que ainda doa os seus muitos
conhecimentos em favor da preservação de
antigas locomotivas e estradas de ferro.
Lelis, ex-ferroviário que ainda doa os seus muitos
conhecimentos em favor da preservação de
antigas locomotivas e estradas de ferro.
Antes de 1910 o bairro de Matosinhos, onde se localiza a Estação Ferroviária de Chagas Dória, era assistido pelos trens da EFOM (Estrada de Ferro Oeste de Minas) que ali paravam para a subida rápida de passageiros e uma breve movimentação de cargas. Não havia o prédio da atual estação. O ponto era mais conhecido como a “Parada do Matosinhos”.
Nos idos de 1908 a Câmara Municipal de São João del-Rei solicitou ao engenheiro Francisco Manuel Chagas Dória, então diretor da EFOM, a construção de um ramal que “partindo de Matosinhos, fosse ter às Águas Santas”, o conhecido balneário localizado no município de Tiradentes. O Ministério da Viação, face às
necessidades apresentadas, autorizou a construção daquele ramal que, infelizmente, não existe mais. O nome de Chagas Dória fora dado à estação como homenagens prestadas pela Câmara de São João del-Rei e Imprensa da cidade ao então diretor da Rede.
A Estação de Chagas Dória, embora retocada por várias reformas paliativas e descaracterizantes, permanece abandonada. A originalidade dela foi bastante afetada por intervenções desastrosas. Ela perdeu a sua cobertura original, feita em chapa de ferro curvo e arremates floreados, importados da Europa no início do século XX. Alguns de seus elementos resistiram bravamente, a exemplo das mãos-francesas de ferro retorcido, desenhado em volutas; também ainda são originais alguns adornos de portas e uma admirável estrutura sustentada por pilares de trilhos que se encaixam e se curvam a guisa de mão-francesa. A sua romântica plataforma ainda conserva a lateral em pedra original, com cerca de meio metro de largura, compondo um belo arremate, originalmente em junta-seca (hoje rejuntado com cimento).
É um importante monumento de valor documental-histórico, tanto que é tombado em nível federal, pelo IPHAN. Atualmente não só a Estação de Chagas Dória, assim como também todo o acervo da antiga EFOM está sendo explorado para fins turísticos pela Ferrovia Centro Atlântica (FCA). A Estação de Chagas Dória e seu entorno estão sendo transformados em lixeira pública, motel a céu-aberto, local de encontro de consumidores de drogas, pouso de mendigos, além de invadido pelo mato.
Há alguns anos a ASMAT (Associação dos Moradores e Amigos do Grande Matosinhos) encomendou para a arquiteta Zuleica Teixeira Lombardi um projeto de restauração da Estação e reurbanização de seu entorno. O projeto foi doado para a Associação, mas, por falta de interesse público, por injunções políticas negativas e por falta de patrocinador, infelizmente não foi implantado. Assim, se teme que aquele patrimônio, a exemplo do que vem acontecendo com todo o Acervo Ferroviário de São João del-Rei, fique relegado ao abandono e se deteriore cada vez mais.
É uma pena que o Bairro de Matosinhos não possua mais o histórico Pavilhão (construído em 1913, em estilo mourisco, e demolido a dinamite, em 1938) e nem a bela e primitiva Igreja do Bom Jesus (construída a partir de 1770), patrimônio tombado nacionalmente[2] e que mesmo assim foi criminosamente demolido nos idos de 1970, através da articulação do afoito padre Jacinto Lovato e com a conivência do então bispo Delfim Ribeiro Guedes.
Restaram, para a memória do Bairro, dois decadentes monumentos: a Estação Ferroviária de Chagas Dória e o conjunto do Chafariz e Estátua da deusa Ceres. Se não cuidarmos deles, as futuras gerações os terão apenas como “retratos drummondianos”[3] nas paredes... Até quando?
Aspecto original da Estação Ferroviária de Chagas Dória (Arquivo: J.A. Ávila)
Detalhe da Estação de Chagas Dória (foto: J. A. Ávila - 2008)
[1] Sócio efetivo, presidente do IHG de São João del-Rei nos mandatos 1999-2001, 2003-2006 e 2006-2009; Vice-Presidente no mandato 2001-2003. É o titular da cadeira número 11, cujo patrono é Batista Caetano de Almeida.
[2] Tombamento efetivado pelo Processo nº 68-38/SPHAN, inscrito no Livro do Tombo de Belas Artes, Vol. 1, fls.2, em 04 de março de 1938.
[3] “Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!” – assim se referiu à cidade natal o poeta Carlos Drummond de Andrade, em seu poema “Confidência do Itabirano”.
sábado, 14 de novembro de 2009
Estações da "bitolinha" da EFOM
Links para o sítio eletrônico "Estações Ferroviárias do Brasil", mantido por Ralph Mennucci Giesbrecht, com informações sobre estações ferroviárias de todo o Brasil. Selecionamos aqui os links para as estações da "bitolinha" da EFOM:
Estações da Estrada de Ferro Oeste de Minas - bitola de 0,76m
Antônio Carlos >> (entroncamento com a Linha do Centro da EFCB) | |||||
Campolide >> | >> Ramal de Barbacena | ||||
Chagas Dória >> | >> Ramal de Águas Santas | ||||
>> Ramal de Lavras | |||||
Ramal de Cláudio << | << Gonçalves Ferreira >> | >> Ramal de Itapecerica | |||
Divinópolis >> | >> Entroncamento com a linha Garças a Belo Horizonte (bitola de 1m) | ||||
>> Ramal dePitangui >> Entoncamento com a linha Paracatu | |||||
BOA VIAGEM!!!!!
Ibitutinga
José Antônio de Ávila Sacramento [1]
Para Oyama Ramalho e para o “Pingo” (menos conhecido por Willer Benedito de Souza).
A Estação Ferroviária de Ibitutinga foi inaugurada em 20 de janeiro de 1887. Em língua indígena o nome dela significa “nuvem branca”. O chamado “Trem do Sertão” por ali passava rumo a Aureliano Mourão, onde havia uma bifurcação, com uma linha chegando a Lavras (a partir de 1888) e a principal seguindo para o norte, atingindo Barra do Paraopeba (a partir de 1894). O tráfego ferroviário cessou em junho de 1983. Em 1984 o trecho ficou sem os trilhos. A Estação foi fechada e o prédio atualmente está servindo de moradia...
A estaçãozinha de “Nuvem Branca” fica bem ao lado da Ponte de Santa Rita do Rio Abaixo, sobre o Rio das Mortes, ficando “de um lado São João del-Rei, a cidade, aonde se ia resolver problemas, fazer compras na farmácia, passar uma escritura, ouvir um conselho do Seu João Ramalho ou aviar uma receita no Seu Banho [2]. Ia-se de roupa limpa, de cabelo penteado, de terninho de brim, de vestidinho de festa, na jardineira do Vadinho, no caminhão do Vicente Mendes ou no trem de ferro da Oeste de Minas.”. Atravessando o rio, “do outro lado era Santa Rita do Rio Abaixo — que cismaram rebatizá-la de Ritápolis — aonde ninguém ia, somente voltavam os que tinham ido, maravilhados com barulho citadino, com a imponência do barroco, com as tabuletas coloridas e com o sortimento das abastadas casas comerciais. E para ir e vir existia uma ponte de pau, que sabe Deus quando e como foi construída. Depois, aproveitaram seus pilares de pedra e fizeram uma outra de cimento armado".
A estaçãozinha de “Nuvem Branca” fica bem ao lado da Ponte de Santa Rita do Rio Abaixo, sobre o Rio das Mortes, ficando “de um lado São João del-Rei, a cidade, aonde se ia resolver problemas, fazer compras na farmácia, passar uma escritura, ouvir um conselho do Seu João Ramalho ou aviar uma receita no Seu Banho [2]. Ia-se de roupa limpa, de cabelo penteado, de terninho de brim, de vestidinho de festa, na jardineira do Vadinho, no caminhão do Vicente Mendes ou no trem de ferro da Oeste de Minas.”. Atravessando o rio, “do outro lado era Santa Rita do Rio Abaixo — que cismaram rebatizá-la de Ritápolis — aonde ninguém ia, somente voltavam os que tinham ido, maravilhados com barulho citadino, com a imponência do barroco, com as tabuletas coloridas e com o sortimento das abastadas casas comerciais. E para ir e vir existia uma ponte de pau, que sabe Deus quando e como foi construída. Depois, aproveitaram seus pilares de pedra e fizeram uma outra de cimento armado".
Aspecto atual da Estação de Ibitutinga (foto do autor - 28.09.2009)
Eu não sei bem da verdade, mas desconfio muito que o ex-prefeito Higino Zacarias de Souza batizou a nova ponte de “cimento armado” com o nome de “Ponte de Santa Rita do Rio Abaixo” por causa de uma memorável carta a ele dirigida no dia 21 de junho do ano de 2000”. A mensagem foi redigida pelo prof. Oyama de Alencar Ramalho e trazia em seu bojo fortes argumentações históricas e razões sentimentais em favor da dita denominação. Foi da epístola de Ramalho que este escriba subtraiu estas formidáveis linhas.
Oyama de Alencar Ramalho, no livro “Cassiterita” [3] (167 páginas, 1996), descreveu muito bem “Nuvem Branca”: “era uma pequena estação ferroviária, quase em cima do km 117 da linha tronco: Sítio-Barra do Paraopeba. Seu estilo arquitetônico seguia o padrão das demais construções da Rede Mineira de Viação, a antiga Oeste de Minas; pé direito de mais de cinco metros, paredes dobradas, telhado de duas águas, sendo que, na parte da frente, uma sustentação de mãos francesas permitia que o beiral se prolongasse, cobrindo toda a plataforma. O madeirame, todo ele, de pinho-de-riga. Bem no centro, a agência com bilheteria e portinhola com cancela; no seu interior, a mesa do telégrafo, o marcador e o escaninho de bilhetes, o cofre de segredo, um tamborete, duas cadeiras e um armário grande, abarrotado de formulários e de material de escrita. Na parede um relógio de pêndulo com algarismos romanos e um emblema de madeira e metal amarelo com encaixe para três bandeirinhas de filele [4] – verde, vermelha e branca. À meia altura de uma das paredes, havia uma janelinha, que servia de comunicação com a moradia do agente. A casa situava-se do lado do nascente do sol e prolongava-se com o jardim, onde o manacá roxo nunca faltava e o antúrio. Do lado do poente, o armazém, com pesadas portas de correr. No fundo, o quintal, com bica de água corrente, canalizada no bambu gigante, derivada do rego que vinha das terras da fazenda Nossa Senhora das Mercês para tocar dois moinhos de fubá; o poço de guardar peixe e um solitário pé de limão galego. No limite do terreno, um arrimo de pedras, endurecido pela erva cidreira e algumas piteiras, sustentava o barranco, sobre o qual se erguia uma antiga e imponente árvore de óleo-bálsamo, cuja copa sombreava parte do galinheiro. Exceto as pedras do alicerce, que se prolongavam como passeio em frente da porta da cozinha, o restante era chão batido e limpo, varrido com vassoura de alecrim.”.
Na mesma obra, Oyama relembra o trem de passageiros e carga “que passava cinco vezes por semana” e que quando estava “descendo para o sertão, chegava às 8,57 e seguia viagem às 9,03. Na volta, chegava às 16,16 e saía às 16,22 horas. Duas vezes por semana, transformava-se em expresso, chegava às 4,37, na ida; e às 21,21 horas na volta, parando somente um minuto na estação”.
A movimentação em Ibitutinga, ou melhor, “a vida social de Nuvem Branca girava em torno do trem de passageiros”. Assim, ainda segundo Oyama, “não se sabe de onde apareciam, mas sempre havia passageiros para embarcar; se homem, estaria de botina-de-goma, calças de brim rancatoco e paletó cáqui; se mulher, não lhe faltam o vestidinho de chita, o batom, delineando um coraçãozinho no lábio superior e os sapatos escambeteados [5] de meio salto. As malas, se houvesse, eram sempre as de papelão grosso, encapadas de pano listrado”. “O negócio do Seu Nogueira fervilhava de matutos, bebendo pinga, fernete ou traçado com o acompanhamento de pele de porco torrada, chouriço, doce de batata-roxa, pé-de-moleque e rapadura.No cantinho do balcão, sempre havia tempo para uma queda-de-braço, uma partida de bisca ou de truco, e embalados pelo álcool, todos contavam suas pobres vantagens...”. Mas, “quando o trem apontava na curva, a plataforma tornava-se pequena para tanta gente, andando pra lá e pra cá. Os moços desfilavam defronte dos carros de passageiros à procura de um olhar ou de um sorriso e quando os encontravam, encabulavam-se.”. Era só o trem chegar na estação que o Zé Assumpção “embarcava as mercadorias” e “desembarcava as cargas do trem para o armazém”. Embora assorbebado de trabalho, o tal do Zé Assumpção “era o que menos tempo tinha para conversar, mas era o que mais sabia das notícias”, e, para fazer todo o seu trabalho tinha apenas “exatos seis minutos.”. Depois deste exíguo tempo, “o agente batia o sino, autorizando a partida, o chefe do trem apitava e a máquina, uma Baldwin sonolenta, de Philadelphia [6], resfolegava seus vapores como se estivesse fazendo um esforço descomunal para arrastar os pesados vagões que se equilibravam na bitolinha de 76 cm.”.
Tarcísio José de Souza, na página 131 do seu livro “Certa Ocasião...”, narra que numa “madrugada sombria e chuvosa de abril, postado no bico da plataforma, guarda-chuva pendurado no bolso traseiro da calça e a capa de chuva sobre os ombros, Zé Augusto, guarda-chaves da estação de Ibitutinga, interroga apressadamente sua filha, Maria Ismênia, que se aproximava trazendo as malas do correio: Onde cê vai, Maria?”. E ela responde: “Vou entregar o correio!”. “Entregar o correio aonde, Maria”, retrucou Zé Augusto. Entregar o Correio no trem, pai!”, respondeu Maria. “Que trem? Acabou o trem, acabou Ibitutinga, acabou tudo...!!!”, lamuriou o guarda-chaves. A razão do queixume foi que despencara do céu vasto aguaceiro, um “dilúvio” que inundou aquelas paragens, parecendo a Zé Augusto que tudo que ali existia estaria irremediavelmente perdido. É, mas não foi daquela vez que Ibitutinga se acabou; a Estação e o trem resistiram bravamente. A verdadeira hecatombe preconizada pelo guarda-chaves abateu-se sobre o local a partir de 1983.
Confesso aos meus leitores que pouco sabia como ainda pouco sei sobre as coisas de Ibitutinga. Passei por lá de trem, em viagem agradavelmente sacolejada, apenas uma solitária vez, no iniciozinho dos anos 1980. Foram paradas rápidas na estação, na ida e na volta. Lembro-me apenas que na volta entraram alguns pescadores, munidos de seus caniços e exibindo alguns dourados, rumo a São João del-Rei.
Em compensação, por inúmeras vezes (sem ter os olhos voltados para as particularidades do local, confesso!) passei de ida e volta pela ponte velha e, mais recentemente também sobre ponte nova, indo para a cidade de Santa Rita ou para mais abaixo dela. Nada mais.
Nada mais? Sim, nada mais até o dia 28 de setembro de 2009, quando um amigo que ficava septuagenário, estando em companhia de outro quase que octogenário, resolveu fazer a gentileza de convidar-me para um passeio memorial lá pelas bandas de Ibitutinga. Fomos de carro, pelo asfalto. Já no local, ouvindo a conversa deles, que têm mestrado e doutorado em assuntos ibitutinguenses, pude perceber a riqueza dos casos e causos envolvendo as personagens que habitaram aquelas imediações, episódios acontecidos nas fazendas e nas margens daquele rio, envolvendo fatos da memória ferroviária daquele local. Depois de algum tempo aproveitando a boa sombra de um bambual onde a prosa correu livre sobre o colchão de folhas e sob a trilha sonora de um sabiá, passamos pela decadente estaçãozinha; depois, alcançamos uma espécie de vilarinho ferroviário (as “Turmas”, moradia do pessoal da manutenção da linha) cujo vestígio ainda existe um pouco mais adiante e que ainda preserva uma graciosa construção com paredes em pedras aparentes, a “casa do trole”.
Debaixo da agradável sombra, nas barrancas do Rio das Mortes, em Ibitutinga, sobre o fofo colchão de folhas do bambuzal e sob a afinada trilha sonora de um sabiá, correu livre, leve e solta a boa prosa entre Oyama e o “Pingo”... (Foto do autor, em 28.09.2009)
De lá voltamos para São João del-Rei, desta feita pela estrada de terra, margeando o lado esquerdo do rio. Procurando a “cachoeira do 12” [7], de repente chegamos à Fazenda do Pombal; coincidentemente, uma composição ferroviária moderna, com mais de uma centena de vagões carregados de minério, cruzava aquele grande viaduto que fica na frente da entrada para o local onde o Tiradentes nasceu [8]; ela me apresentou tão altiva que achei que lá do alto estivesse a debochar do leito moribundo e pelado da antiga EFOM, onde estávamos.
Como se eu ainda não soubesse que a nossa região guarda muitos tesouros, fiquei embasbacado pelo fato de cada vez mais poder confirmar como são ricos de Histórias e estórias os nossos sub-burgos, incluindo aí o sítio de “Nuvem Branca”! Naquele momento, não pude deixar de lembrar de uma frase cujo direito autoral é bastante disputado: “Quer ser universal, fale do seu quintal” [9]. Esta citação é a que guia da maioria dos meus escritos e guiou-me também para fazer este breve relato da visita a Ibitutinga!
Agora, depois de conhecer um pouco do local e da sua história, estou com uma forte queda pela região de “Nuvem Branca”. Procuro resposta para esta repentina paixonite que é ambígua, reconheço, posto que já esteja comprometido com a região do arraial bandeirante e migueliano da “boca do mato”.
A resposta para esta indagação deve estar contida numa frase da já mencionada carta que o Oyama escreveu para o ex-prefeito de “Santa Rita do Rio Abaixo”: “sem o passado trivial na memória destruiremos nossos mitos, destruiremos nossa mineiridade e não conseguiremos enxergar com exatidão o porvir. Seremos presas fáceis da velocidade dos tempos modernos e globalizados que nos têm levado para os rumos incertos do imediatismo".
Fontes de consulta:
Fontes de consulta:
RAMALHO, Oyama de Alencar. Cassiterita. São João del-Rei: Edit. do autor. 1996. 167p.
SOUZA, Tarcísio José de. Certa Ocasião... São João del-Rei: FUNREI, 2000. 133p.: ilustrações de Fábio Márcio e Sônia Maria.
Notas
[1] Ex-presidente do IHG de São João del-Rei. Este artigo foi publicado originalmente, em versão reduzida, no JORNAL DE MINAS (Edição 108, Ano IX, de 06 a 12/11/2009,p.2), editado e distribuído em São João del-Rei pelo sócio efetivo deste IHG, Dr. Neudon Bosco Barbosa.
[2] Uma referência ao ilustre farmacêutico Sebastião Alves do Banho, que manteve em S. João del-Rei, durante muitos anos, a Farmácia Banho.
[3] Cassiterita é um mineral (óxido de estanho, SnO2), além de ser também o título de um interessante livro da lavra de Oyama de Alencar Ramalho. As regiões de Santa Rita do Rio Abaixo, Ibitutinga e adjacências foram grandes locais de extração do mineral, atraindo, por causa disso, técnicos, forasteiros e aventureiros de várias partes do país e até mesmo do exterior. Conversando com Oyama e com o “Pingo”, que bem conheceram a “febre” do minério por aquelas bandas, ouvi deles que possivelmente, à época, aquela região pudesse ser considerada, sem exageros, segundo dissera o geólogo Feres Dekechi, como “a maior produtora mundial de cassiterita”.
[4] Filele é “tipo de tecido leve de lã com que se fabricam bandeiras, bandeirolas, galhardetes etc.”.
[5] Segundo a linguagem popular, pronunciava-se iscambetiádus.
[6] As locomotivas norte-americanas Baldwin Locomotive Works, produzidas na Filadélfia, dominaram, à sua época, o mercado ferroviário mundial.
[7] Ao falar em “Cachoeira do 12”, relembro o caso do “Moleque 12”, relatado por Tarcísio José de Souza no seu livro “Certa Ocasião...”, páginas 90-93: um sujeito muito estranho comprou passagem com destino a Lavras-MG, em Ibitutinga; Zé Theodoro, depois de alertado pelo guarda que desconfiara dos modos do passageiro, telegrafou para S. João del-Rei, de onde saíram quatro agentes da polícia e deram voz de prisão ao suspeito. Tratava-se do “Moleque 12, um fora da lei, preso na cadeia de São João, por vários assaltos, latrocínio e outros crimes” e que “havia escapado, às 18 horas, durante um descuido do carcereiro”. No momento em que foi preso, um policial disse para ele: “Aí, ‘Moleque 12’, agora tu morre na cadeia!”. E ele respondeu: “Morro nada. Tenho contas a acertar com o agente de Ibitutinga”. Dizem que Zé Theodoro, temeroso do cumprimento daquele juramento, passou até a andar armado e só tranqüilizou-se após saber da morte do meliante.
[8] Trata-se de um dos muitos viadutos da chamada “Ferrovia do Aço”, cujas obras foram concebidas a época do "Milagre Econômico", durante o regime militar, com sua construção anunciada pelo governo em 1973. O traçado da ferrovia necessitou de grandes e difíceis obras de engenharia, principalmente túneis e pontes, por causa do relevo acidentado destas nossas muitas Minas. Privatizada em 1997, atualmente a ferrovia é explorada pela MRS Logística.
[9] A citação é atribuída ao russo Liev Nikoláievich Tolstói. Tolstói foi um dos grandes da literatura russa no século XIX. Segundo Carla Tichetti dal Pacci e Silva (historiadora e licenciada em letras modernas), Tolstói citava a frase freqüentemente, mas o autor dela teria sido o poeta, prosador e dramaturgo russo Aleksander Púchkin. Dizem que um jovem escritor russo procurara Púchkin, de quem se tornara amigo, com a seguinte indagação: como fazer para que o seu romance se tornasse universal? Púchkin respondeu-lhe: “Queres ser universal? Fale sobre a sua aldeia, ou sobre o seu quintal” (em russo: “Rotish Ziemliatiski? Skajish tibiê Dirievie!”). Aí o escritor foi para casa e escreveu o romance. O nome dele era Nikolai Gogol; o título do romance que ele escreveu: Almas Mortas, obra-prima da literatura universal. Adélia Prado também já citou a frase em uma entrevista, mas não fez comentários sobre a autoria dela...
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